20 de julho – Obrigado, Chester

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Eu realmente não sei o que dizer nesse post, mas eu preciso escrever. Porque a dor dentro de mim é forte e verdadeira pra ficar guardada. Hoje, 20 de julho de 2017, Chris Cornell, minha segunda voz preferida no Rock, vocalista de bandas como Soundgarden e Audioslave, completaria 53 anos. Engraçado, ele hoje estaria fazendo a idade da minha mãe. Estaria. Quase dois meses atrás Chris Cornell cometeu suicídio. Foi encontrado morto em um quarto de hotel.

Hoje, 20 de julho, quando Chris Cornell completaria 53 anos, outro ídolo de minha adolescência, vocalista da banda que me fez gostar de rock’n’roll, também cometeu suicídio. Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, tinha 41 anos. Deixa seis filhos, de dois casamentos. Sua voz, junto com a de Avril Lavigne, foi responsável por formar meu gosto musical durante a transição da minha infância para a adolescência, e ainda hoje Linkin Park está entre minhas cinco bandas favoritas da vida. Hybrid Theory e Meteora, seus dois primeiros álbuns, são obras primas.

Eu pensei em escrever um monte de coisas, pensei em gravar um vídeo, mas no momento eu realmente não estou com cabeça pra isso. Minha semana vinha sendo bem complicada, doída, e mais esse baque pra aguentar… Não tá fácil. Depressão não é fácil, eu sei disso na pele. Em todas as noites insones e solitárias, em todo cinza que vejo no mundo, nas duas vezes que cheguei a planejar me matar. Depressão não é fácil, e sinto muito por você, Chester, como senti e ainda sinto por seu grande amigo Chris. Vocês foram cedo demais, tirados desse mundo pela pior de todas as doenças. Eu sinto muito mesmo.

Porém, infinitamente maior que a dor que sinto é a gratidão. Obrigado por ter feito parte da minha vida, Chester. Por ter me inspirado, me divertido, me ajudado. Seu legado permanecerá e sua voz jamais será esquecida. Jamais.

Gratidão, irmão. E vai em paz, pra onde quer que seja.

O Cuidado é como o Amor se manifesta no mundo

Da série “textos que eu gostaria de ter escrito”, vem mais um do incrível Alex Castro. Você pode visitar o site dele clicando aqui.

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O Cuidado é como o Amor se manifesta no mundo

FODA-SE O QUE SINTO, O QUE IMPORTA É O QUE FAÇO. Texto por Alex Castro

Existem muitos mitos perigosos em nossa sociedade.

Existe o mito do “amor materno”, que diz que TODA mãe naturalmente amará sua cria mais do que tudo, e que silencia, entre muitas outras coisas, a simples realidade de que as mulheres são seres individuais que amam ou não cada uma do seu jeito, e também a terrível realidade da depressão pós-parto. Existe o mito da “feminilidade cuidadora”, que diz que TODAS as mulheres, mães ou não, são naturalmente mais delicadas e sensíveis, empáticas e carinhosas, e portanto, seriam mais aptas para profissões como babás e enfermeiras e menos para general de brigada e presidente da república, silenciando e invisibilizando tanto as mulheres não cuidadoras quanto os homens cuidadores.

Por fim, existem muitos e muitos mitos sobre o “amor”, essa pretensa emoção sublime e pura que nos arrebataria o corpo e mudaria nossa vida, uma coisa linda sobre a qual muito se fala mas que eu nunca vi, peguei, cheirei, testemunhei. Porque eu testemunho ações, não emoções: eu testemunho apenas o que as pessoas FAZEM, não o que SENTEM. As emoções das outras pessoas estão sempre fora do alcance do meu poder de observação. As ações das outras pessoas, por outro lado, estão aí no mundo, acontecendo ao vivo e em 3D, em technicolor e em dolby surround, afetando nossas vidas e ditando o tom de nossa existência.

PARA MIM, O AMOR É UM CUIDADO. Amar É cuidar. 

Um amor, por mais incrível que se DIGA amor, que não se manifeste em cuidado prático e concreto… De que adianta? A quem serve? Por outro lado, se a pessoa me cuidou com atenção e com dedicação, com respeito à minhas necessidades e aos meus limites… Que diferença faz para mim o que ela realmente sentiu, essas tais emoções puras às quais não tenho nem nunca terei acesso, a não ser através de suas ações?

Algumas pessoas, apegadas as suas ideias idealizadas de “amor puro”, reagem com horror: “Alex, cuidado é uma coisa que se compra! Então, dá pra comprar amor?”

De fato, não sei.

No filme, “Que horas ela volta?”, será que a personagem da Regina Casé realmente amava o menino da casa? Apesar de ser paga para cuidar dele, entre muitas outras atribuições, me parece que ela também demonstrou seu amor por ele através de uma série de ações cuidadosas e cuidadoras. Será que achamos realmente que a pessoa que trabalha em uma pré-escola ou creche, orfanato ou hospital infantil, não ama nenhuma das crianças que cuida só porque recebe dinheiro para cuidar delas? Se essa pessoa fizer apenas o mínimo necessário para não perder o emprego, isso para mim não é cuidado e, sem cuidado, não há amor. Mas, se cuidar verdadeiramente das crianças que recebe dinheiro para cuidar… Não vejo como isso seria possível sem amor.

Não é nem que cuidar verdadeiramente sem amor é impossível.

É QUE CUIDAR VERDADEIRAMENTE É AMOR.

Cuidar verdadeiramente é como o Amor se manifesta no mundo. 

Existe um troço dentro de mim, etéreo e efêmero, que reconheço como sendo parecido ou equivalente ao conceito que a nossa sociedade articula como “amor”. Então, chamo isso de “amor”.

O problema é que esse troço está largamente fora do meu controle. Minha vida teria sido um oceano de placidez se eu pudesse ter escolhido deixar de amar algumas pessoas e começar a amar outras, ligar ou desligar esse troço ao meu bel-prazer. Mas, talvez a descoberta mais incrível e transformadora da minha vida, é que, em termos de minha atuação no mundo como pessoa moral, não fazia a menor diferença prática quem eu amava e quem eu não amava. Para ouvir e acolher, abraçar e aceitar uma pessoa eu não precisava nem mesmo gostar dela: bastava reconhecer nela a mesma humanidade, a mesma consciência, a mesma autonomia, o mesmo VALOR que reconheço em mim.

Hoje, ao invés de me obrigar a sentir o que não sinto, ao invés mesmo de ficar investigando o que sinto e o que não sinto (“será que amo verdadeiramente essa pessoa?”), eu simplesmente tento cuidar amorosamente de todas as pessoas que estão ao meu alcance.

FODA-SE O QUE SINTO, O QUE IMPORTA É O QUE FAÇO.

Outro dia, uma pessoa me confidenciou que nunca foi amada. Nem pela mãe, nem por ninguém. Nunca. Ponto. E eu tive a temeridade de responder: “Olha, nem te conheço, mas posso afirmar com certeza que não”. Porque o ser humano passa anos e anos completamente dependente: durante meses, não consegue nem virar o próprio corpo na cama. Todas nós já fomos seres indefesos que só conseguiam gritar e comer, cagar e mijar. Para qualquer pessoa adulta, teria sido fácil e tentador simplesmente dar um passo atrás e andar na direção oposta dos gritos estridentes e do cheiro de merda. cada uma de nós só está aqui hoje porque, ao longo de vários anos, fomos recipientes de muita atenção, muito cuidado, muito amor. Talvez não tenha sido sua mãe. Talvez não tenha sido ninguém da sua família. Talvez você nunca saiba quem foi.

Mas, com certeza, você já foi muito amada.

SOMOS TODAS A PROVA VIVA DO AMOR QUE RECEBEMOS.

A vida, o universo e tudo mais.

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Sim, estou de volta ao YouTube. Não é a primeira vez que faço um post como esse, pois não é a primeira vez que volto ao YouTube. Postei meu primeiro vídeo no YouTube em 2010, e se eu tivesse a cabeça que tenho hoje lá naquele tempo, eu teria insistido, encontrado meu nicho e quem sabe hoje estivesse vivendo de YouTube. Eu poderia ser famoso, já pensou? Mas não adianta chorar pelo leite derramado, o tempo não volta.

Em 2015, quando publiquei As Crônicas de Pindorama, abri um novo canal no Youtube, o Pindorama Geek, para falar especificamente sobre temas relacionados a cultura pop. Era um foco bem específico que foi bem nos dois primeiros meses. Consegui 98 inscritos, e vídeo com mais de 500 visualizações. Mas por um monte de problemas pessoais que quem acompanha o blogue deve saber, acabei parando de fazer os vídeos e durante o ano de 2016 postei quase nada naquele canal. Uma das minhas metas para 2017 era reiniciar o canal, com meu nome, postando regularmente. Eu fiz isso por duas semanas, e parei novamente, por conta dos mesmos problemas que me fizeram parar antes. Crises de pânico, depressão, problemas familiares.

Acabou que no decorrer do ano (dá pra acreditar que já estamos no finzinho da primeira metade de 2017?) eu excluí os meus antigos e-mails, criando um novo endereço, ou seja, uma nova conta do Google e consequentemente um novo canal. Eu não ia mais fazer vídeos para o Youtube, ia usar o canal apenas para poder me inscrever nos canais que curto e comentar e curtir, enfim, usar o Youtube como uma rede social, mas sem compartilhar conteúdo.

Porém, ao recomeçar meu tratamento contra a depressão e o transtorno de pânico, no começo de maio, me veio a ideia de voltar a fazer vídeos para o YouTube. Foi uma vontade natural, sem grandes pretensões, apenas ter um lugar onde eu poderia me expressar, falar sobre as coisas que são importantes pra mim, contar meus relatos, quem sabe ajudar ou divertir outras pessoas. Seria um desafio, sabe? Manter a regularidade nas postagens, gravar, editar. Tudo que envolve a produção audiovisual teria que ser feito por mim, sem qualquer ajuda. E pior, sem qualquer equipamento adequado. Eu já tive duas boas câmeras, uma Canon T3i e uma Samsung NX300m, além de equipamento de áudio (microfones direcionais, de lapela, gravador) e iluminação de excelente qualidade. Acabei tendo que vender todos esses materiais por pura falta de organização.

O único equipamento de gravação que eu poderia usar era meu celular, um Blu Energy X Plus.

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Um celular com uma câmera traseira não muito boa, de apenas 8 megapixels, e que é um terror para filmar durante a noite. Comprei um microfone condensador da China, que funciona sem a bateria se conectado diretamente a um notebook, mas o cabo veio defeituoso e meu novo computador tem uma entrada única de fone e microfone, ou seja, ele não reconhece o microfone condensador.

Mas eu decidi fazer mesmo assim. Sem estrutura profissional, mas cheio de vontade, de amor mesmo. De novo, o desejo veio naturalmente e eu meio que precisava disso. Foi quase como fazer terapia, na verdade, comecei o canal com essa ideia. Eu falaria sobre o que quisesse e sobre o que precisasse falar, e talvez depois novas ideias surgiriam. O canal teria meu próprio nome, e eu fiquei durante uns dois dias pensando em como poderia ser a introdução dos vídeos.

Pessoalmente, acho a introdução do canal do PC Siqueira a melhor da internet. “Oi, como vai você?”. É simples, acolhedor e genial ao mesmo tempo. Gostaria de ter pensado nela antes, não vou mentir. Mas eu não pensei nisso e fiquei durante dois dias quebrando a cabeça em como me apresentar nos vídeos. Foi aí que pensei numa coisa bem óbvia, numa coisa que eu realmente gosto e que representa o que quero para o canal.

Olá pessoal, sejam bem-vindos a vida, o universo e tudo mais…

Capa A Vida o universo

Eu sou muito fã do Douglas Adams e da série O Guia do Mochileiro das Galáxias. O terceiro livro da série chama-se A Vida, o Universo e Tudo Mais. Responder qual o sentido da vida, do universo e de tudo mais é meio que o mote da série, é meio sobre o quê eu gostaria de falar no canal. O sentido que eu estou lutando para encontrar para a vida, o universo e tudo mais. Por isso eu decidi chamar o canal de A vida, o universo e tudo mais, e decidi também me apresentar dessa maneira. Por isso que o meu primeiro vídeo é sobre recomeços, sobre tentar de novo. Encontrar seu sentido, seu caminho.

Engraçado que hoje faz exatamente um mês que comecei o canal. Só soube disso agora, quando fui ver a quantidade de programas postados por lá. Consegui postar 11 programas inéditos, uma introdução e o meu cover da música Trem-Bala, da Ana Vilela. E sabe as ideias que pensei que poderiam surgir depois? Elas já surgiram. Vou usar meu canal para o meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Em breve vou apresentar para os inscritos um novo cenário, novos quadros além do #RBVlogue e também falar sobre como vai ser esse TCC. Enfim, nasceu como uma terapia, e está funcionando, porque apesar de todas as dificuldades que enfrentei no último mês, consegui sobreviver até aqui, e manter a regularidade das postagens no canal. Quem diria, hein?

Farei o meu melhor para não deixar a peteca cair e manter o ritmo do canal. Farei meu melhor para levar bom conteúdo para vocês. Abaixo deixo dois vídeos que foram especiais de gravar. Um falando sobre o universo do livro As Crônicas de Pindorama, a continuação da história e tudo mais. O outro foi um vídeo que soltei na última terça, em homenagem ao aniversário de 20 anos da publicação de Harry Potter, série de fantasia com quem tenho uma relação diferente e especial. Você pode conferir os vídeos, se inscrever no canal, curtir e compartilhar com o pessoal. Vem mais coisa legal por aí. Obrigado por ter me acompanhado até aqui, seja no blogue, seja no canal. Você não imagina como esses espaços são importantes pra mim. Boa noite, e que venham muitos outros projetos.

Um grande beijo no coração de vocês. ❤

Sobre funk, genocídio cultural e liberdade de expressão

Há alguns minutos, coisa de meia hora, eu me deparei com a seguinte postagem no Facebook:

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Eu pensei se tratar de uma brincadeira, mas vi que era real. Um senhor, o empresário paulista Marcelo Afonso, criou uma campanha para criminalizar o funk, e obteve o apoio de 20 mil pessoas. O site do Senado Federal costuma realizar essas enquetes para fazer uma triagem do que a população brasileira pensa sobre o assunto. Qualquer cidadão brasileiro pode fazer uma campanha como essa, juntar um monte de assinaturas e apresentar a Comissão de Legislação Participativa do Congresso Federal. Não sei como isso funciona a fundo, mas (e aqui estou supondo), que depois das sessões dessa Comissão de Legislativa Participativa se um parlamentar acolher a proposta pode levá-la a plenário, para votação, a fim de torná-la lei.

Talvez você já tenha visto várias dessas votações na internet. O Senado geralmente faz consultas sobre temas polêmicos, como casamento homoafetivo, aborto, impostos para igrejas e outras coisas. Mas eu nunca pensei que veria uma consulta sobre criminalizar um ritmo musical inteiro.

Você não entendeu errado. Alguém utilizando o portal e-Cidadania fez um campanha com outras 20 mil pessoas brasileiras para CRIMINALIZAR O FUNK.

Então eu fui pesquisar. Coisa básica mesmo, pesquisa rápida no Google. Sabe quando foi a última vez que um ritmo musical no Brasil foi criminalizado? No século XIX. Século 19. Aconteceu com o samba, porque samba era coisa de preto, de escravo, era sujo e imoral, e os locais de samba eram verdadeiros locais de perdição. Duvida? Olhe aqui.

O Brasil entrou em uma espiral descendente de sujeira e autodestruição desde o Golpe Institucional. As coisas não estavam boas com Dilma e o PT, mas pioraram consideravelmente de lá para cá. Talvez a situação do país estivesse pior com Dilma, mas pessoalmente acho isso difícil. Afinal, com ela no poder o acordão nacional do Jucá não teria efeito. Temos um presidente sem qualquer condição de governar o Brasil, um congresso criminoso, onde em troca de apoio o governo vai salvar o mandato de Aécio, o traficante que mataria o primo antes de uma delação. Duvida, olhe aqui, tá na Globo. 😉

Nossa Suprema Corte não tem qualquer força moral, nossos juízes são corruptos, nossos políticos nos enganam na cara dura, o desemprego aumenta a níveis alarmantes, a economia vai mal, violência e insegurança tomam as ruas das nossas cidades, a saúde pública está um caos, mas tudo bem, a prioridade de parte da população é criminalizar o funk. Talvez isso resolva nossos problemas, não é mesmo?

Protestar contra a corrupção sistemática no Congresso e em nossas cortes? Isso pode esperar.

Pedir a renúncia de Temer e brigar por eleições diretas e reforma política? Deixa pra lá.

Lutar contra as reformas trabalhista e previdenciária, que vai tirar direitos da população mais pobre, do trabalhador assalariado, seja ele de classe média ou baixa? Pra quê, né? O importante é não termos mais que nos preocupar com MC Guimé, MC Bin Ladem, MC Kekel, Karol Conká, Anitta e etc.

Eu quis achar que era uma piada de mau gosto, mas não era. Tá aqui, no Zero Hora. Romário, o senador, declarou:

“Eu, como um carioca nato e um eterno funkeiro, sou totalmente contra essa proposta. Além de ser inconstitucional, por atentar contra a liberdade de expressão, o funk tira pessoas do desemprego, gera renda e movimenta a economia. … o funk começou no Rio de Janeiro, mas ganhou o Brasil, se tornando mais um ritmo musical que expressa a identidade de uma grande parcela da população”.

Romário está certo, a proposta é inconstitucional, mas não duvido nada que seja acolhida por algum congressista da bancada evangélica, pois funk ofende os valores da tradicional família brasileira. Interessante que a proposta não visa criminalizar a bossa nova, o forró, o brega.

Será uma coincidência que o funk nasceu dentro do movimento negro marginalizado nos EUA e aqui no Brasil foi acolhido pelas favelas do Rio que são formadas, vejam só, por pessoas negras em sua maioria? Eu não acho coincidência. O mesmo vale também para o hip hop, inclusive lá na década de 60, 70, funk e hip hop andavam de mãos dadas pelos guetos estadunidenses. Quanto tempo até que uma nova proposta seja feita, proibindo e criminalizando não apenas os MC’s, mas também os rappers, que em sua maioria são pretos ou pardos e vem quase sempre de favelas pobres?

Criminalizar o funk é, como foi a criminalização do samba, um extermínio cultural de uma população inteira. E novamente esse extermínio é realizado contra a população negra, berço do funk, do samba, do hip hop. Criminalizar esses ou quaisquer outros ritmos musicais é proibir a expressão de um povo, de um grupo. É um genocídio cultural.

Se ainda não ficou claro para você o absurdo de tal proposta, deixa eu te mostrar uma coisa. É uma invenção minha? Não. É o inciso IX do Artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Como jornalista, eu DEFENDO A TOTAL LIBERDADE DE EXPRESSÃO, NÃO APENAS PARA A IMPRENSA, MAS PARA TODA A POPULAÇÃO.

Quer fazer música com palavrão? Faça.

Quer falar em rede nacional que bandido bom é bandido morto? Fale.

Quer fazer música de apologia ao assédio ou ao estupro? Faça.

Quer escrever um livro defendendo o nazi-facismo? Escreva.

Quer fazer piada na tevê ofendendo pessoas privadas ou quem quer que seja? Faça.

E responda legalmente por tudo isso que você fez ou falou. Responda por crime de ódio, por apologia ao nazismo, por incitação a violência, por calúnia e difamação, por qualquer coisa que tiver feito ou falado que feriu o direito do seu semelhante ou o prejudicou de alguma maneira.

MAS VOCÊ TEM O DIREITO DE SE EXPRESSAR COMO E SOBRE O QUÊ QUISER.

Em uma democracia NÃO PODE HAVER NENHUM ÚNICO TIPO DE CENSURA. Se você não gosta de funk, é simples, NÃO ESCUTE FUNK. Mas não se intrometa na liberdade expressão do semelhante, direito inalienável de qualquer ser humano e o princípio básico da democracia.

Você pode votar NÃO a essa aberração nesse link aqui, basta clicar. E se você faz parte das mais de 38 mil pessoas que já se manifestaram a favor de tal aberração no site do Senado, volte algumas casas, pois acredito que você nasceu no século errado. Por favor, volte para o século XIX, parece que você não está preparado para o mundo do século XXI. 

Por Rafael Buarque Montenegro

Jornalista. Campina Grande, 23 de junho de 2017.

A depressão é um negócio solitário

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Depressão e solidão andam de mãos dadas. Diria que andam quase abraçadas, para falar a verdade. Enfrentar a depressão é enfrentar uma jornada solitária, não importa quantas pessoas estejam ao seu redor, te amando, te ajudando, te dizendo que você é importante e que vai melhorar. Em alguns momentos o que essas pessoas dizem vai te ajudar e você vai mesmo se sentir amado, querido, guardado, vai se sentir feliz novamente e praticamente invencível.

E no instante seguinte, talvez no dia ou na semana seguinte, no mês seguinte, não importa, você vai se ver só novamente. Não porque você esteja só, de fato e de direito. Eu não estou. Sei que não sou o mais popular dos caras, mas tenho pessoas que me amam, gente que me admira, e até já cheguei a ouvir que sou inspiração para algumas pessoas. Talvez você, que como eu está enfrentando a depressão, também tenha ouvido isso. Mas você, como eu, ainda se vê completamente sozinho em alguns momentos.

Isso acontece porque depressão é uma mentira. 

Uma grande, enorme, gigantesca mentira. Não que ela não aconteça de verdade, não que você não se sinta destruído por dentro e por fora, muitas vezes. Não é nesse sentido que estou falando. Depressão é uma mentira que nossa mente conta para nós, todos os dias. E eu sei que você consegue identificar essa mentira. Depressão é aquela voz na sua cabeça que diz para você continuar na cama, que nada do que existe lá fora interessa, que nada do que existe lá fora é para você. Que seus amigos não são amigos de verdade, afinal, eles não se preocupam com você. Que sua família apenas te atura, mas no fundo estão cansados de ter que conviver com suas crises, suas dores, seus choros. Pra quê levantar, então? Por que não se enterrar embaixo das cobertas para sempre, onde é quente, confortável, onde a dor parece ser menor? Você está sozinho. Quando alguém chega pra você e diz que você é incrível, que você é especial, que você é amado, é claro que ela está mentindo, está apenas sendo gentil, mantendo as aparências. E assim a voz repete, repete, repete, repete.

E na maioria das vezes, durante os piores dias, eu acredito na voz. Talvez você acredite na voz. Porque ela repete isso tantas vezes, que não tem condições dela estar mentindo. Dizem que uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade. E a depressão repete essas mentiras muito mais do que mil vezes. Pelo menos pra mim. Durante os bons dias, que nas crises são meio escassos, mas que têm voltado a ser mais regulares depois que recomecei meu tratamento, eu consigo ignorar essas mentiras a maior parte do tempo. Eu consigo tapar meus ouvidos. Mas nem sempre, nem todo o tempo. Eu estou lá, ignorando a depressão, ignorando todo seu blá-blá-blá idiota e sem sentido na minha cabeça, e ela continua repetindo seu mantra destruidor, querendo me colocar de joelhos de novo, como ela faz na maioria das vezes.

Foda-se a depressão. Fodam-se as mentiras. Uma mentira contada um milhão de vezes continua sendo a porra de uma mentira.

É isso que eu digo hoje. Eu não estou sozinho. Você não está sozinho, por mais que a depressão te diga isso. 

“Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si, é sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti”. 

Eu não acredito em deuses, em nenhum deles. Se você acredita, saiba que Ele zela por você. Quanto a mim, eu acredito no amor e no carinho que algumas pessoas tem por mim, e eu sei que esse amor e carinho são verdadeiros. Em alguns momentos, vários, por sinal, eu quis duvidar desses sentimentos, em alguns momentos eu realmente me senti só. Mas hoje não.

Em Game of Thrones (um seriado que fortemente recomendo), Syrio Forel, um espadachim que dá aulas à Arya Stark (uma das minhas personagens preferidas da série), diz a ela em uma de suas lições:

– Há apenas um deus e seu nome é Morte. E há apenas uma coisa que dizemos para a Morte: Hoje não. 

Depressão é um negócio solitário, não apenas porque ela te diz que você está só, mas principalmente porque você tem de enfrentá-la sozinho. Sua família pode estar ao seu lado, seus amigos podem estar ao seu lado, seu Deus pode estar ao seu lado, mas é você que tem que dar o primeiro passo, por mais difícil que ele seja e por mais vezes que você tenha que repeti-lo, pois caiu e falhou. Há sempre uma nova chance, um recomeço.

Depressão é um negócio solitário, mas superável. Controlável. E há apenas uma coisa que dizemos para a Depressão:

Hoje não.

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Sobre 13 Reasons Why e a romantização de temas sérios (ou nem tudo é tão bom quanto parece de primeira)

13 Reasons Why estreou todos os seus episódios na Netflix no dia 31 de março, uma sexta-feira. De lá para cá foi um dos assuntos dominantes na internet brasileira, com a hashtag #nãosejaumporquê ocupando durante um bom tempo o topo da lista de assuntos mais comentados no Twitter. Em praticamente 10 dias desde a sua estreia, a série conquistou inúmeros fãs, levantou várias discussões necessárias e recebeu, em sua maioria, elogios veementes nas centenas de críticas que pipocaram pelos blogs, canais de youtube e páginas de Facebook que acompanho. Então pensei bastante antes de escrever esse texto, pois o que eu poderia dizer que iria de fato acrescentar ao debate?

Resolvi dar minha opinião pessoal, sincera, como alguém que sofre de depressão, transtorno de ansiedade e já flertou com o suicídio algumas vezes, e que nos últimos dois anos leu muito sobre esses assuntos. Vou inclusive escrever outros textos sobre essa temática. Essa é uma discussão necessária, que precisa ser levada a sério e feita com a profundidade que o assunto merece, indo muito além de hashtags e campanhas publicitárias temporárias.

Muito bem, vamos ao que interessa. Eu não tinha quaisquer expectativas para a série antes de sua estreia. Tinha visto uma única notícia promocional sobre, onde falava que a série era produzida pela Selena Gomes, que pra mim é uma cantora teen que foi namorada do Justin Bieber (argumento horrível, eu sei, mas é o que eu sabia sobre ela). Lembro de ter visto vagamente sobre o que era a série e imaginado que aquela seria mais uma série adolescente, abordando um tema mais sério, mas ainda uma série adolescente. Na sexta (31), horário de almoço, abri a Netflix procurando outro programa para assistir, ia finalmente começar a ver The Americans, quando vi logo de cara o banner gigantesco de anúncio de 13 Reasons Why, ou Os 13 Porquês, em português. Pensei: “nossa, estreou aquela série adolescente sobre bullying e suicídio”. Resolvi que assistiria apenas um episódio para ver se era uma série adolescente mesmo ou se tinha algo mais.

Vi um episódio na hora do almoço, outro durante a tarde, e por volta das nove e meia da noite comecei o terceiro episódio. Não consegui mais parar. Assisti até o décimo segundo, indo dormir as seis e meia da manhã do sábado. Acordei por volta das quatro da tarde, quando finalmente vi o décimo terceiro capítulo e finalizei a série. Uma tonelada de emoções diferentes passou pela minha cabeça enquanto assistia, e outra tonelada de emoções perdura, mais de uma semana depois. Porém, agora já consigo, depois de ter lido centenas de comentários sobre e relembrado inúmeros momentos chave da história e pensado muito, muito mesmo, a respeito, colocar essas emoções em ordem e tecer alguns comentários sobre essa, que passa longe de ser a melhor ou a mais importante produção da Netflix até agora, mas com certeza é a que mais deu pano para manga e levantou discussões importantes.

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13 Reasons Why (sinopse): Uma caixa de sapatos é enviada para Clay (Dylan Minnette) por Hannah (Katherine Langford), sua amiga e paixão platônica secreta de escola. O jovem ser surpreende ao ver o remetente, pois Hannah acabara de se suicidar. Dentro da caixa há várias fitas cassete, onde a jovem lista os 13 motivos que a levaram a interromper sua vida – além de instruções para elas serem passadas entre os demais envolvidos.

De cara, ao terminar de assistir o último episódio, fiquei com um gosto ruim na boca. Chocado, porque a série era muito mais pesada do que imaginei que seria. Naquele momento achei que isso era uma coisa boa e a reação que tive foi comentar no Facebook que aquele era um programa necessário, que poderia ajudar a levantar discussões importantíssimas, porém era muito pesado, então era melhor as pessoas irem com calma ao assistir. Eu mesmo tive duas crises de ansiedade enquanto assistia, uma delas no último episódio, onde o suicídio de Hannah é mostrado com todos os detalhes. Fiquei mesmo com a impressão de que aquela era uma boa série.

Me identifiquei com a Hannah. Me identifiquei com o Clay. Me identifiquei com vários dos outros personagens, afinal eu mesmo já fui um “porquê”. Então aquela era uma boa série, necessária. Mas ao mesmo tempo que tive esse pensamento fiquei também com uma sensação de incômodo, e não sabia precisar direito o motivo. Aos poucos fui descobrindo o porquê desse sentimento. 

Primeiro foram os elogios. Do domingo em diante (entre meus contatos no Facebook eu fui um dos primeiros a terminar a série) começaram a chover postagens falando sobre a série. “Maravilhosa”, “incrível”, “espetacular” e outros adjetivos semelhantes começaram a ser usados para se referir a 13 Reasons Why. “Amei” ou “estou adorando” também eram frequentes. Meu primeiro pensamento foi “gente, essa não é uma série maravilhosa, ou incrível, muito menos uma série para se amar”. Achei a série pesada, necessária, mas nada disso que estão falando, como alguém pode dizer que amou uma série sobre suicídio, sobre bullying, assédio e abuso sexual? Isso, aliado a quantidade de pessoas que vi comentando como se identificaram com a Hannah, ligou meu primeiro sinal de alerta. Talvez a série estivesse sendo mal interpretada?

Depois foi a própria qualidade técnica da produção. O roteiro da série é um clickbait em si mesmo, foi feito exclusivamente para te prender assistindo, e isso não é um elogio. Uma história que poderia ser contada em seis ou oito episódios é estendida até treze. Clay demora uma infinidade de tempo para ouvir as fitas, tornando essa demora muito irritante. Depois vem a caracterização terrível dos personagens adultos. Os adolescentes da série são muito bem retratados e alguns dos atores – que são desconhecidos do grande público – tem atuações memoráveis (como o próprio Dylan e a Katherine), mas com exceção dos pais da Hannah, vividos com maestria pela Kate Walsh e pelo Brian James, todos os demais personagens adultos são inverossímeis e possuem zero capacidade de lidar com adolescentes. Sejam os professores ou coordenadores da escola, ou os pais do Clay que são, no mínimo, irresponsáveis e desatentos, apesar de a série não os apresentar assim. Na minha experiência, com meus pais, tios, amigos, nenhum pai ou mãe realmente interessado age como eles. Não age, ponto. E para completar, o roteiro, ao colocar numa mesma caixa os 13 porquês, acaba culpabilizando todos eles de maneira igual. A impressão que fica é que sim, de fato aquelas pessoas foram responsáveis pela morte da Hannah. O roteiro da série coloca lado-a-lado um garoto que divulgou um poema sem autorização (e por isso mesmo não colocou a autoria), uma garota que quebrou uma placa de trânsito e uma outra garota que, mais do que um porquê é uma própria vítima do machismo estrutural da sociedade e de um estupro, com um stalker que pratica pornografia de vingança e um estuprador em série. A série acaba colocando, intencionalmente ou não, todos no mesmo saco. E isso é, além de errado, irresponsável. Procurar culpa depois de um suicídio não é algo legal a se fazer, e não sou eu que estou falando, são os profissionais ligados ao tema, psiquiatras e psicólogos.

Já eram dois sinais de alerta, mas o terceiro e principal deles só foi surgir alguns dias depois. Era algo que tinha me incomodado desde o momento que assistia a série, mas que eu ainda não sabia definir o que era. Foi quando alguém me lembrou de algo muito importante: o pacto de silêncio que existe na mídia sobre não noticiar suicídios. Explico. Suicídio é uma temática importante e precisa ser debatida, questionada, prevenida? Sim. Vou falar sobre isso noutro texto. Mas a questão é que existe um pacto na imprensa de não noticiar casos de suicídio, pois é comprovado que muitas vezes esse tipo de notícia acaba funcionando como gatilho para outras pessoas que estejam em situação semelhante. Lembrei de quando estava no Espírito Santo, em 2011, onde existe a Terceira Ponte, que liga Vitória e Vila Velha e tem um vão de setenta metros de altura. Perguntei ao meu tio se não havia casos de pessoas que pulavam de lá, e ele me respondeu que tais casos eram frequentes, inclusive um deles tinha acontecido na semana anterior. Questionei o motivo da imprensa não noticiar e ele respondeu: se a mídia mostra isso acaba incentivando quem quer se matar. Fim da conversa. Comecei a prestar atenção e realmente, a mídia não costuma noticiar casos de suicídio.

E mesmo assim as taxas de suicídio seguem subindo no mundo inteiro, Brasil incluso.

Finalmente percebi que a sensação ruim que tive ao ver a série foi justamente essa: ELA PODE SER UM GATILHO para pessoas que estão sofrendo com transtornos psicológicos ou qualquer um dos problemas apresentados na série. Imagine uma jovem que, como Hannah, sofreu abuso sexual e psicológico. Imagine que ela não consegue contar para ninguém, seus pais inclusive, e motivada por uma série de consequências psicológicas como transtorno de pânico, de ansiedade, depressão, acredita não ter nenhuma saída ou não ter ninguém que de fato a dê algum suporte.

Não acredito que 13 Reasons Why pode ajudá-la de qualquer maneira. Pelo contrário. 

Li uma notícia de uma jovem que se suicidou após a estreia da série, e cuja última postagem em seu Facebook mostrava que estava assistindo a produção. Li também em posts nas redes sociais que aparentemente os casos de suicídio entre jovens estavam aumentando após a estreia da série. Não consegui averiguar a veracidade da informação, e vai ser difícil confirmar tais dados pois é mais provável que a mídia não divulgue, caso haja uma relação como essa, para não incentivar mais jovens a ter atitude semelhante.

Depois de tudo isso, o que dizer mais? Uma produção que aborde temas como os de 13 Reasons Why é necessária. Muitas vezes, um programa de tevê, um vídeo no Youtube ou um post no Facebook feito por alguém que o jovem respeita tem muito mais alcance do que várias campanhas governamentais. O problema é quando esse programa distorce ou romantiza as coisas. Hannah, a personagem, sofria com depressão e provavelmente uma série de outros transtornos. Em nenhum momento a série aborda isso, pois prefere ficar mostrando a culpa que cada um teve e como eles preferiram se omitir e não ajudar, num jogo de mocinhos e vilões, onde na vida real as coisas são um pouco mais complicadas (tirando a responsabilidade que os personagens criminosos tiveram, claro). Foi irresponsável ou ingênuo por parte da produção ir por esse caminho. Se em mim, que estou novamente tomando remédio para ansiedade, a série me fez ter duas crises, fico pensando que tipo de pensamentos ela pode ter causado por aí.

Até onde o alcance positivo (e negativo) da série se estende? Ainda não é possível mensurar, mas já consigo ver claramente que não são apenas pontos positivos. Minhas ressalvas tornaram-se maiores com o tempo e hoje aconselho que, se você sofre com depressão ou outros transtornos psicológicos, se já teve ou tem pensamentos suicidas, não veja essa série. E se você conhece alguém do seu convívio que sofre com esses problemas, talvez não seja uma boa ele assistir essa série no momento.

Por fim, apesar de todos esses porquês, 13 Reasons Why também trouxe reações positivas. O número de pedidos de ajuda ao CVV (Centro de Valorização da Vida, uma ONG de ajuda pessoal e de prevenção ao suicídio) por e-mail dobrou, ao menos 25 deles mencionando a série, e uma grande discussão surgiu na internet nos últimos dias. Pessoas estão falando sobre a importância de melhorarmos nossos relacionamentos, cuidarmos mais daqueles que amamos e evitarmos sermos pontos de tropeço e gatilhos na vida do outro, buscando sermos seres humanos melhores, fugindo de práticas nocivas como bullying, machismo, homofobia e toda sorte de preconceitos e jogos de humilhação. E isso é muito bom, precisa ser falado. Só que mais do que falar, isso precisa ser praticado, não pode ser apenas mais uma hashtag.

E se você está passando por um momento difícil em sua vida, se acredita que está sozinho e pensa que talvez a morte seja sua única opção, procure ajuda. Viver não é mesmo fácil, eu sei bem disso, mas não precisa ser o fim. Você vale a pena, e tem sim gente que pode e quer te ajudar. Como o CVV, que está 24 horas disponível. Não hesite em ligar.

Campanha CVV - LOGO

voce-vale

GAIA VINGADORA (um conto inédito pra vocês)

olá pessoas leitoras, tudo bem com vocês! sei que algumas entre vocês estão com saudades do que eu escrevo. querem muito o livro 2 das crônicas de pindorama que, minha culpa, está demorando bastante pra sair. então, enquanto a grande noite não é publicado, resolvi postar esse conto inédito aqui no blogue, todinho pra vocês. já que não dá pra ter annabel por enquanto, deixo vocês com outra deusa, de outro panteão, o grego. lhes apresento gaia. e ela não está nada satisfeita.

gaia vingadora

um conto por r. b. montenegro

gaia

em algum ponto perdido nos resquícios do que outrora foi a imensa floresta amazônica, um local inóspito e esquecido, talvez um dos poucos na terra onde os homens ainda não pousaram sua influência imunda, ela desperta. em meio ao húmus ela se levanta. seu corpo, que tem como matéria-prima a terra preta daquele chão repleto de morte e de vida, de escuridão e de luz, de amor e ódio, chão que carrega em si os pecados do homem e a sua própria punição, é desse chão que o seu corpo se ergue, esguio, divino, enquanto aos poucos assume as formas perfeitas de uma deusa, da única e verdadeira, e a carne vai tomando o lugar do barro.

sua pele é da cor do córtex das árvores, como o caule marrom das gigantes andirobas ou tatajubas, brilhante e tão suave que envergonharia as pétalas das flores. seus cabelos, negros como a noite e que lhe chegam à cintura, são lisos e assentam-se perfeitamente em sua cabeça, como uma cuia. uma franja se forma acima de seus olhos, que exalam vida e possuem a cor das folhas das mesmas árvores que lhe circundam. esses olhos também estão repletos de um sentimento próprio, voraz. desejo, ódio. manifestados em uma única palavra: vingança. ou justiça, talvez seja esse o termo mais correto.

ela se levanta e caminha através da floresta. seus passos são leves e nenhum barulho se escuta, nem o mais leve farfalhar de folhas, nem o pio do menor dos pássaros ou o guincho de qualquer uma das dezenas de espécies de primatas que ainda resistem ali. tem-se a impressão de que o mundo ao seu redor calou-se, e animais e plantas rendem-se ao poder de sua criadora. ela tem consciência disso, e sabe porque está ali. aquele mundo lhe pertence, e a milênios ele vem sendo tomado, mutilado, destruído. agora é hora de fazer justiça, chegou o momento de equilibrar a balança.

um gigantesco felino de pele totalmente negra e olhos amarelos prostra-se a sua frente, em reverência. ela se ajoelha, e deixa suas mãos tocarem o pelo do animal. fica assim por alguns minutos, até que seus ouvidos percebem um estranho ruído, diferente dos tradicionais sons da floresta e a alguns quilômetros de distância. ela fecha os olhos, despede-se do animal, e permite que seus pensamentos transportem-na, como uma brisa, até o lugar original do som.

um ser humano, aquele que deveria ser o guardião de sua criação é, como sempre, o causador do distúrbio, e a deusa se depara com uma pequena clareira aberta na floresta, onde dois homens descansam sob a sombra de uma choupana de madeira e plástico. são jovens, observa, talvez entre os vinte e trinta anos de vida, e trajam vestes simples, calções de jeans e sapatos de couro, gastos pelo uso excessivo. nenhuma vestimenta cobre seus torsos, desnudos, morenos, molhados pelo suor causado pelo esforço que fazem naquele trabalho. são fortes, necessitam ser, ou não estariam aptos para a tarefa que realizam. o coração dela acelera, seus olhos brilham e um arrepio percorre toda a sua espinha, fazendo eriçar os pelos do seu perfeito corpo, inclusive a suave penugem que cobre o seu sexo. os mamilos enrijecem levemente, sua boca se contrai num gemido de prazer, ao imaginar o que faria com aqueles homens, e de como seus demônios começariam a ser liberados a partir dali. olha uma última vez para o objeto causador do distúrbio, uma motosserra, usada para derrubar as árvores de sua floresta. foi mais do que o suficiente para alimentar o fogo que queima de seus olhos verdes.

– então, antônio, como eu tava te dizendo o jogo… PUTA QUE PARIU! – ele não teve tempo de terminar a fala. de frente a choupana estava a mais bela mulher que seus olhos mortais já haviam visto.

– CARALHO! santa mãe de deus! de onde saiu essa miragem, carlos?

– eu não sei, antônio. – diz o primeiro e mais alto dos dois, se levantando e passando a mão nos cabelos. – e sinceramente não faço questão de saber. – ele se dirige agora à mulher, com um sorriso safado no rosto. – a senhorita tem um nome?

ela não responde. apenas olha fixamente nos olhos de carlos, depois nos de antônio, e solta um leve gemido, o que é suficiente para convencer os dois homens sobre seus propósitos ali. carlos e antônio não contam história, afinal, estavam sem mulher havia duas luas, presos naquela maldita floresta, derrubando árvores seis dos sete dias da semana e tocando punheta para aliviar o tédio. uma beleza daquelas não seria rejeitada.

– eu fico com a boceta, carlos.

– teu cu que a boceta é minha, antônio, e sem discussão!

o outro ainda ensaiou um protesto, mas após olhar mais detidamente o corpo perfeito da mulher, que julgaram se tratar de uma índia perdida, viu que tanto o cu como a boceta trariam igual prazer. ambos tiram as calças e, após ajeitarem-se desordenadamente sobre uma mesa velha, começam a dança do amor.

ela sente os membros de ambos roçando sua carne, entrando e saindo num vai-e-vem pulsante, vivo. ela gosta daquele sentimento, uma sensação esquecida há milênios. emite pequenos gemidos de prazer enquanto é preenchida por aqueles dois homens, que com seus fálus tortos e sujos se esforçam ao máximo naquela que seria a transa de suas vidas. o vai-e-vem aumenta, o ritmo aumenta, a pulsação aumenta, os gemidos e impropérios gritados também aumentam. puta, vadia, gostosa, safada, delícia, rapariga. toma, mete tudo, antônio. e ela segue calada, aproveitando o prazer. ao longe, bugios começam a gritar. toda a floresta parece observar, enquanto o trio fode a foda dos loucos, duas criaturas fodem a criadora que os proveu por tanto tempo. os bugios, sagazes, gritam em protesto, aumentando o tom, esbravejando, até que se calam ante à chegada do gozo.

homens e deusas gozam ao mesmo tempo, e eles, cansados, sorriem um para o outro. ela sorri, mas não pelo prazer do sexo. outro prazer domina sua mente agora, o prazer da justiça. o primeiro demônio fora liberado, a vingança começara. seus olhos, verdes e vivos, queimam com o fogo da vingança, e nos seus íntimos os homens percebem que algo está errado.

carlos, aquele que fodera a boceta, tenta desvencilhar-se dela, mas o sexo da deusa tornara-se mais e mais apertado e o membro do homem, já mole, é cortado na base, um corte limpo e cirúrgico. sangue jorra em todas as direções enquanto carlos grita de dor, de pavor, e cambaleia para trás, em pânico, apenas para ver a estranha mulher se virar em direção a antônio, que tentara correr para a floresta. porém, diretamente do chão, brotaram ramos como de trepadeiras e seguraram o jovem rapaz pelos braços e pernas, prendendo-o fortemente no ar.

inutilmente ele gritou. inutilmente pediu perdão pelos seus pecados. os ramos continuaram puxando, cada um em uma direção, até que ossos, carne, tendões e músculos foram rasgados, fazendo esguichar sangue e entranhas, pintando de vermelho o chão negro da floresta.

gaia se volta para o outro homem e caminha lentamente em sua direção. sente o falo dele dissolvendo-se dentro de si, tornando-se parte dela, tão parte dela como era toda árvore, todo bicho, toda água, toda pedra, toda a vida. ele está caído, encostado em um imenso tronco, derrubado poucos dias antes. em seus olhos ela enxerga o pavor, e isso a faz sorrir. esse mesmo pavor cairá sobre todos os homens em breve, pensa, e ajoelha-se em frente a ele.

– por favor… – o coitado diz, implorando, num sussurro choroso e covarde. – por favor…

– o meu nome… – ela diz, baixinho.

– o quê?

– o meu nome, vós perguntastes. – ela sorri enquanto sua mão pousa sobre a cabeça de carlos e suas unhas crescem, firmes, duras como aço, agudas como o diamante, e seguem seu caminho perfurando o crânio do homem, fazendo escorrer o sangue e o cérebro através de cinco perfeitas incisões, o que faz com que ele morra com uma expressão de medo e dúvida na face. – o meu nome é gaia, verme, e eu terei minha vingança.

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Jornal O Globo, edição do dia 28 de setembro de 2019

FENÔMENOS NATURAIS CAUSAM PÂNICO NA POPULAÇÃO AMERICANA

Os últimos dias têm se mostrado terríveis para a população do continente americano devido a uma série de fenômenos naturais repentinos que assolam a região. O primeiro deles ocorreu há três dias, quando uma tsunami provocada por um terremoto varreu as principais cidades do litoral brasileiro. Estima-se que mais de dez milhões de pessoas perderam a vida e outros milhões estão desabrigados. A cidade de Brasília foi inteiramente destruída por um tufão seguido de um incêndio, e mais 800 mil pessoas perderam suas vidas. Fenômenos semelhantes tem sido registrados no Chile, Argentina, Venezuela, Peru, Guiana, Cuba e México, e o número de tornados tem aumentando nos Estados Unidos, além de uma forte frente fria que está se formando sobre Nova York e avançando para o oeste. Nenhum cientista ou instituto meteorológico consegue explicar a natureza dos fenômenos, o que aumenta o pânico entre a população, abrindo espaços para seitas e especuladores que argumentam tratar-se do fim do mundo, o evento predito na Bíblia cristã como Apocalipse. O que estará de fato acontecendo?

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ela caminha através das ruas mal iluminadas de varsóvia, polônia. num bairro periférico, onde dominam o tráfico e a prostituição, uma jovem mulher de estatura mediana, magra, e sem nenhum traço excepcional de beleza passaria naturalmente despercebida, especialmente naquela noite. aleixa precisava de muitos artifícios para atrair seus clientes. a idade era um deles, o jeito infantil, que ela mantinha como forma de sobreviver, embora sua mente e seu corpo já tivessem sofrido o suficiente para a vida de vários adultos. aquela noite está particularmente fria e ela está mais coberta que o habitual, mas ela não se importa, não pareciam haver clientes dispostos a enfrentar o frio por uma trepada rápida num beco escuro. se conseguisse cigarros já estava satisfeita. cigarros e o café da manhã. queria os dois, precisava de ambos, embora trocasse os dois por algumas granas de heroína. maldita mãe, ela pensa, filha-duma-puta. afinal, fora samita quem viciara a filha quatro anos antes. não adianta pensar no passado, resmunga, chutando um pouco de neve. preciso dos cigarros e do café da manhã, e quem sabe de algum dinheiro extra. então ela continua sua caminhada através das ruas sujas da cidade.

ela caminha através de outras ruas mal iluminadas de varsóvia, polônia. num bairro periférico onde dominam o tráfico e a prostituição, uma mulher alta, de pele amorenada e lindos olhos verdes não passaria despercebida. mas a onda de frio também atingira a europa e não há muitas pessoas interessadas em sexo ou drogas nas ruas durante as frias horas da madrugada. os mortais preocupam-se apenas em sobreviver, o que está bastante difícil ultimamente. gaia veste-se como uma local e roupas em excesso cobrem seu lindo corpo. ela não precisa das roupas, afinal, não sente frio ou calor, está acima destes fatores mundanos, mas as vestes disfarçam sua presença e escondem seu propósito. um último demônio precisa ser liberado, e para tanto um último sacrifício precisa ser feito. pazuzu, o senhor dos ventos mortais fora o primeiro a ser excarcerado, e após ele seguira-se mohara, a senhora das águas destruidoras e asag, o senhor de todas as enfermidades. por fim, lamashtu, o senhor dos mortos, precisa ser finalmente alforriado de sua prisão, para que toda a humanidade pague por seus crimes. a terra será renovada, e o novo poderá surgir. o belo dominará novamente a face do planeta, e seres perfeitos novamente o povoarão.

– não mais o egoísmo, a ganância e a violência humana manchando minha criação. – ela diz, para si, enquanto dobra em uma esquina, seguindo por um beco ainda mais escuro.

– masz papierosa? tem um cigarro? – a voz é feminina, suave e melancólica, e vem de um dos cantos mais escuros do beco. gaia sabe que a jovem dona da voz tem apenas dezessete anos e vive na rua desde os quinze, prostituindo-se para pagar seu vício em heroína e lsd. gaia sabe agora de todas as coisas. sabe também que a garota se chama aleixa e que com o rigor do frio e com a pneumonia que já se instala nos pulmões da jovem ela morrerá antes que lamashtu complete seu trabalho. gaia sabe que, diferente das outras pessoas perdidas por varsóvia, aleixa não se preocupa em sobreviver por muito tempo. para a garota, a morte seria bem-vinda. estar viva é uma morte repetida para ela. vez após vez ela morre por um cigarro ou alguma droga. sofre em uma única vida o que muitos não conhecem em várias. a garota seria um bom sacrifício, e por sob toda a roupa que ela veste, a deusa consegue imaginar o corpo magro, porém voluptuoso, da menina mulher.

– nie, przepraszam. não, me desculpe. – ela se surpreende pois, por um instante, sentiu-se realmente culpada por não ter um cigarro.

– kurwa. nie wazne. foda-se, não importa.

tentada pela insolência da garota, gaia avança.

– mam cos lepszego, faktycznie. tenho algo melhor, na verdade.

seus lábios se tocam, seus braços se entrelaçam e seus corpos se encontram num beco escuro e sujo de varsóvia. gaia, a deusa, a única e verdadeira, a mãe de toda a terra, geradora, infinita, despertada pelo insano comportamento destruidor do homem para cumprir sua vingança e sua justiça sobre o mundo, e aleixa, a jovem meretriz.

o abraço aquece a ambas, e as peças de roupas começam a cair desajeitadamente no chão. o calor que provem de gaia aquece aleixa, e a jovem não liga ao deitar-se nua sobre a neve, tendo sobre seu corpo magro o corpo da estranha e bela mulher, tendo os seus pequenos seios pressionados pelos seios perfeitos da desconhecida, tendo seu sexo tocado pelos dedos hábeis e gentis da forasteira, que penetram sua pochwa ao mesmo tempo que massageiam seu clitóris, tendo sua língua sugada pela boca quente e sensual daquela mulher, aquela estranha mulher que fode como afrodite, a deusa do amor na mitologia grega.

enquanto penetra a jovem com os dedos, ´gaia beija-lhe profundamente, e sente o calor que vem daquele corpo juvenil, um calor aconchegante, pacífico, que lhe acalma, que por mais que tente, não consegue subjugar com seu ódio. o que estaria acontecendo?

um suspiro anuncia que o gozo de aleixa se aproxima, e gaia retoma vigorosamente o seu rito, ao passo que roça seu próprio sexo contra as coxas nuas da jovem e percebe seu próprio coração acelerado, numa clara revelação de que seu próprio prazer também se avizinha.

aleixa, deitada na neve, não sente o frio acossar seu corpo, mas sim o calor, estranho e diferente, oriundo da mulher desconhecida, um calor que não lhe aquece apenas o corpo, mas a alma. a medida que o orgasmo se aproxima ela sente esse calor aumentar, seu coração acelera e sua alma, quase numa transcendência, enxerga um pedaço do universo, da criação, ali naquele beco escuro, e a garota tem um vislumbre efêmero de quem seria a mulher à sua frente. sua mãe, sua irmã, sua filha, seu chão, ela própria. tudo e nada. tão rápido quanto começou o vislumbre termina e aleixa volta a concentrar-se no prazer que se aproxima, ciente de que jamais viveria uma experiência semelhante.

elas gozam juntas instantes depois, intensa e demoradamente, ainda com as bocas coladas e os corpos fustigados pelo vento enregelante.

a deusa afasta o rosto da jovem, e sente seus olhos queimando com o fogo da justiça ao começar a proferir as palavras, mas, num gesto desleixado, aleixa vira o rosto e com o riso pueril dos inocentes, interrompe o ritual de gaia.

– dziekuje. obrigado. – a jovem diz, entre sorrisos e gemidos, resquícios do prazer recém terminado. – nikt nigdy nie pieprzyl mnie w tem sposób. ninguém nunca me comeu assim antes. dziekuje.

gaia estaca. o que estaria acontecendo? por que interrompera o seu ritual? sua mão direita ainda segurava o crânio da menina pela nuca, apenas algumas palavras e tudo estaria completo, o último demônio seria liberto e pôr fim a justiça seria feita, o homem pagaria por seus crimes. mas ela ainda hesitava. por que hesitava? por que tremia ante o que devia ser feito, por causa de palavras proferidas ao vento por uma simples garota, mal saída da meninice, mas que já sabia tanto sobre a vida e seus sofrimentos?

– co powiedziec? o que disse? – gaia perguntou, ligeiramente atônita.

– dziekuje. ty… ty ze mnie cos dobrego. ale czy na pewno nie masz papierosa? obrigado. você me fez algo bom. mas tem certeza de que não tens cigarros?

ainda mais atônita, e sem entender o porquê estava fazendo aquilo, gaia levantou-se e vestiu-se. olhou para a jovem nua a sua frente e sentiu seu coração e seu corpo tremer. algo naquela jovem lhe despertara algo, talvez algo ainda mais forte que o ódio que sentia. ordenou a jovem que fizesse o mesmo e observou enquanto aleixa cobria o corpo magro com as poucas roupas que possuía. por fim, a deusa retirou o grosso casaco de lã que a cobria e deu-o a aleixa dizendo que não tinha cigarros, mas que ela poderia ficar com o casaco. beijou a garota, retirando dela a fraqueza e a doença, fazendo a jovem sorrir com seus dentes amarelados do cigarro e do ácido.

– dziekuje, jestes dobrym czlowiekiem… obrigado, você é uma boa pessoa.

gaia não se virou ao ir embora. não olhou para trás e enxergou em meio a escuridão do beco o sorriso amarelado de aleixa. em sua boca o gosto da garota ainda estava lá, assim como em sua mão o sabor do sexo. estranhamente, tudo parecia feliz, e ela sabia que algo estava errado. não completara o sacrifício, não libertara Lamashtu, e sentia-se estranhamente tentada a não abrir as prisões que cerravam o demônio dos mortos. sentia, contrariando seu ódio e todo o desejo de vingança, esperança, algo que há milênios já não sentia. fora aleixa e seu sexo gentil quem despertara-lhe esse sentimento? foram as palavras doces proferidas pela jovem? foram as circunstâncias da existência? talvez a conexão íntima que sentira no momento do sexo, não somente com aleixa, mas com seu próprio eu, sua própria criação, totalmente diferente da conexão que sentira nos sacrifícios anteriores? foi o arrependimento manifestado por grande parte da espécie, que buscava incessante e inutilmente preservar e salvar o que restava de natureza, na tentativa de preservar e salvar suas próprias vidas?

o que faria agora?

sentiu que o frio ao seu redor aumentava e os flocos de neve tornavam-se mais espessos, e percebeu que não era um simples acaso, mas algo causado por alguém poderoso, alguém que controlava os ventos com mãos de ferro, alguém que não ficaria satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos.

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Jornal O Globo, edição do dia 09 de janeiro de 2020

DEPOIS DA TEMPESTADE, HÁ BONANÇA

Apenas poucos meses de acontecimentos e fenômenos naturais inexplicáveis e a humanidade poderia ter sido extinta. Tão misteriosamente como começaram as tragédias cessaram, e levaram consigo as principais cidades do mundo e aproximadamente quatro bilhões de pessoas com elas. O mundo segue caótico, mas é possível ver no olhar dos sobreviventes traços de um sentimento comum a nossa espécie: esperança. Sobrevivemos. E agora temos esperança num futuro melhor, num futuro construído com nossas próprias mãos, onde todas as espécies do planeta convivam em paz, vivendo em respeito mútuo, aceitando as benesses da mãe Terra, e preservando-a, para que possamos permanecer aqui durante os séculos seguintes. Aprendemos, embora da pior maneira, a necessidade de cuidarmos do planeta e do nosso próximo. Que a lição permaneça gravada para sempre na memória de todos nós e que cenas como as que presenciamos nos últimos meses não venham jamais a se repetir na história da humanidade.

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gaia senta-se num dos bancos da pequena praça na periferia de varsóvia. tudo ao seu redor está congelado, desde as modestas roseiras que outrora enfeitaram a praça até a módica fonte, que tinha seu valor nos dias de antigamente. mas ela não se importa com o frio, e já livrou-se das roupas mortais. neve, vento e gelo circundam a praça, formando uma barreira e tornando-a invisível a olhos curiosos. sim, ele veio, ela pensa, claro que viria. teria que lidar com ele de alguma forma, afinal, lamashtu era seu irmão. mohara e azag também não ficariam satisfeitos, mas eram de temperamento ligeiramente mais dócil. pazuzu era o obstáculo principal.

– caishte u’nal ru’ryen, miisa? algo como “o que estás fazendo, irmã?”, na língua antiga. – a voz consegue ser mais fria do que todo o gelo que envolve a praça.

gaia se vira e encara pazuzu. o demônio dos ventos é alto, talvez dois metros ou um pouco mais, e possui duas longas asas, semelhantes a asas de morcego, saindo da extremidade de suas costas. talvez o peso das asas, talvez o cansaço, mas quando pazuzu está em pé ele fica ligeiramente curvado, tendo por isso a aparência de um velho. sua pele é azulada, repleta de rugas oriundas da ação do tempo, inexorável, mesmo para um ser supostamente imortal. os dedos de suas mãos são longos e finos, e suas unhas crescidas transformadas em garras dão-lhe uma aparência horrenda. seus olhos, de um azul escuro e frio, e sua boca, que num tom de roxo parece ligeiramente apodrecida, completam o quadro horrífico que a imagem do demônio forma. mas gaia não se assusta. já lidara com pazuzu antes, e lidaria novamente se preciso fosse.

– kain te’uy uinhs anarkethau, miisa. eu te fiz uma pergunta, irmã.

– e eu escolhi não respondê-la… irmão.

– por que usas essa língua imperfeita? o que fazes, gaia? desistisses dos teus propósitos? por que não libertastes lamashtu? onde está o meu irmão?! – a última sentença foi pronunciada com raiva, uma raiva feroz, capaz de congelar os olhos e o coração de qualquer mortal, mas pazuzu sabe que não está diante de uma mortal.

– decidi dar-lhes uma nova chance.

– por quê?

– eu os criei, os motivos pertencem a mim.

pazuzu ri, um riso irônico e desdenhoso, e o vento e o frio aumentam ao seu redor. a praça está completamente cercada por uma forte corrente de vento, como se inserida no olho de um furação congelante.

– custhe arye’nal deathon ie. você irá pagar por isso.

– você irá tentar. – gaia retrucou, e fechando os olhos deixou-se inundar por todo o seu poder. quando os abriu novamente já estavam dominados pela fúria verde, a mesma fúria que despedaçara carlos e antônio, que libertara os primeiros demônios e fizera a destruição cair sobre o mundo. a mesma fúria com que possuíra aleixa. o pensamento a fez hesitar. aleixa e o calor entre as suas coxas aqueceu seu coração, lembrando-a o porquê de estar ali. talvez estivesse enganada, talvez a destruição fosse inevitável, mas se havia uma chance, se, por menor que fosse a probabilidade, a humanidade pudesse ser redimida, aleixa a fizera decidir-se em prol dessa tentativa. a dúvida passou, a fúria voltou aos seus olhos e ela atacou.

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mohara e asag observam o local onde antes havia uma praça em varsóvia, capital da polônia. faz sol, e o clima é ligeiramente ameno. sentados no alto de um prédio próximo, eles observam em silêncio a cratera onde pazuzu e gaia haviam duelado, duas noites antes.

– o que nós vamos fazer agora? – pergunta asag, na língua comum. – sinto que pazuzu está morto, e gaia, bom, não consigo encontrá-la também.

– gaia dormiu novamente, meu irmão. quanto tempo irá durar o seu sono eu não faço ideia. – mohara responde. – mas ela expressou seu desejo, e confiou que os humanos seguiriam seu caminho. optou por dar-lhes uma nova chance.

– estará ela certo?

– certa ou não, devemos respeitar seu desejo.

ficaram em silêncio por mais alguns instantes, observando os humanos que andavam para lá e para cá, removendo escombros, socorrendo feridos, procurando sobreviventes. tentando retomar a difícil rotina da vida.

– o que faremos, irmã?

– voltaremos aos nossos refúgios. e esperaremos.

– esperar?

– sim, meu irmão. um dia, talvez em breve, talvez milênios à frente, gaia retornará e cumprirá sua vingança. nesse dia estaremos prontos.

mohara e asag levantam voo e seguem, cada um numa direção. centenas de metros abaixo, no meio da cratera, um flor nasce entre os escombros. uma flor, uma azaleia rosa. a deusa dorme, e a vingança dá lugar, mais uma vez, à esperança.

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p. s.: este conto seria publicado originalmente na antologia deusas assassinas, mas o projeto não deu certo. resolvi postar por aqui. por favor, digam nos comentários, daqui ou do facebook, o que acharam de gaia e sua jornada. beijos de luz!